Capim do Vale
1980 - CBS/ Epic
O segundo disco é composto por canções nordestinas. Traz a clássica “Veja (Margarida)”, de Vital Farias, além de “Porto da Saudade” (Alceu Valença), “Capim do Vale” (Sivuca e Paulinho Tapajós) e “Caldeirão dos Mitos” (Braulio Tavares).
músicas
Caldeirão dos Mitos
(Bráulio Tavares)
CBS/ Epic/ Sony Music
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Eu vi o céu à meia-noite
Se avermelhando num clarão
Como o incêndio anunciado
No Apocalipse de São João
Porém não era nada disso
Era um corisco, era um lampião.
Eu vi um risco nos espaços;
Era o revôo de um sanhaçu;
Eu vi o dia amanhecendo
No ronco do maracatu;
Não era a lança de São Jorge,
Era o espinho do mandacaru.
Vi um profeta conduzindo
Pros arraias as multidões
Pra construir um chão sagrado
Com espingardas e facões;
Não foi Moisés na Palestina,
Foi Conselheiro andando nos sertões.
Eu vi um som na escadaria
Do re-mi-fa-sol-la-di-do;
Não era o eco das trombetas
De Josué em Jericó;
Era um fole de oito-baixos
A toca numa noite de forró.
Vi um magrelo amarelado
Passando a perna no patrão;
Não foi ninguém na Inglaterra
Nem de Paris nem do Japão;
Era Pedro Malazarte, era João Grlio
E era Canção.
Eu vi um som ao meio-dia
No meio do chão do Ceará;
Não era o coro dos Arcanjos
Nem era a voz de Jeová:
Era uma cascavel, armando
O bote balançando maracá.
Vi uma mão fazer o barro
Um homem forte, um homem nu;
Um homem branco como eu
Um homem preto como tu;
Porém não foi a mão de Deus;
Foi Vitalino de Caruaru.
Nó Cego
(Pedro Osmar)
CBS/ Epic/ Sony Music
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É você a pessoa que deu
Um nó cego em meu peito
De apaixonado? (Bis)
É você
O mascarado que me trancou
O mascarado que me trancou
Nessa noite sem amor?
Nessa noite sem amor?
É você amigo?
E você o inimigo?
É você o perigo?
É você
É você a garra de fome
Que atormenta o presente?
É você que mente muito?
Que me engana
Que me rouba da vida?
Pés de Milho
(Jatobá)
CBS/ Epic/ Sony Music
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Pés de milho
Os andarilhos
Como os nossos filhos
Procurando vinte milhas
Pelas nossas filhas
Protegendo milharais
Como as nossas mães
Perseguindo os animais
Como nossos pais
Comparando a rouxinóis
Tal nossos avós
Flutuando pelos rios
Como os nossos tios
Fungos, cogumelos, limos
Como os nossos primos
Tanta gente tão aflita
Que eu não sei ainda
Se transformo o trigo em pão
Pra nossos irmãos
Ou transformo o pão em trigo
Pros nossos amigos
Que estão salvos do perigo
Do primeiro abrigo
Procurando girassóis
Como todos nós
Légua Tirana
(Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira)
CBS/ Epic/ Sony Music
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Oh que estrada mais comprida
Oh que légua tão tirana
Ai se eu tivesse asas
Inda hoje eu via Ana
Quando o sol tostou as folhas
E bebeu o riachão
Fui inté o Juazeiro
Pra fazer minha oração
Tô voltando estrupiado
Mas alegre o coração
Padim Ciço ouviu minha prece
Fez chover no meu sertão
Oh que estrada mais comprida
Oh que légua tão tirana
Ai se eu tivesse asas
Inda hoje eu via Ana
Varei mais de vinte serras
De alpercata e pé no chão
Mesmo assim como inda farta
Pra chegar no meu rincão
Trago um terço pra das Dores
Pra Reimundo um violão
E pra ela, e pra ela
Trago eu e o coração
Porto da Saudade
(Alceu Valença/ Refrão do Folcolre Nordestino)
CBS/ Epic/ Sony Music
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Faz tanto tempo
Tempo é rua solidade
Leia saudade quando escrevo solidão
Quis o destino tortuoso dos ciganos
E as aventuras dos pneus de um caminhão
Que atravessava o riacho de salobro
Deixando marcas desenhadas pelo chão
O vento vinha e varria a minha volta
A ventania e o tempo
Não tem compaixão
Oh mana deixa eu ir
Oh mana eu vou só
Oh mana deixa eu ir
Pro sertão de caicó
Faz tanto tempo
Tempo é o porto da saudade
Praias do Rio de Janeiro no verão
Quero o destino das águas dos oceanos
Me evaporando preu chover no riachão
Mergulharia no riacho de salobro
Lavando a culpa como se eu fosse cristão
O vento vinha e varria a minha volta
A ventania e o tempo
Não tem compaixão
O Violeiro
(Elomar)
CBS/ Epic/ Sony Music
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Vou cantar num canto de primeiro
As coisas lá da minha mudernagem
Que me fizeram errante violeiro
Eu falo sério e não é vadiagem
É pra você que agora está me ouvindo
Eu juro inté pelo santo menino
Virgem Maria que ouve o que eu digo
Se for mentira que me mande um castigo
Ia pois pro cantador e violeiro
Só há três coisas nesse mundo vão
Amor, forria, viola, nunca dinheiro
Viola, forria, amor, dinheiro não
Cantador de trovas e martelos
De gabinetes, ligeira e mourão
Ai cantador corri o mundo inteiro
Já inté cantei nas portas de um castelo
De um rei que se chamava de João
Pode acreditar meu companheiro
A dispois de eu ter cantado o dia inteiro
O rei me disse fica
Eu disse não
Se eu tivesse de viver obrigado
Um dia e antes desse dia eu morro
Deus fez os homens e os bichos tudo forro
Já havia escrito no livro sagrado
Que a vida nessa terra é uma passagem
Cada um leva um fardo pesado
É o ensinamento que desde a mudernagem
Eu trago dentro do coração guardado
Tive muita dor de não ter nada
Pensando que nesse mundo é tudo ter
Mas só depois de penar pelas estradas
Beleza na pobresa é que fui ver
Fui ver na procissão louvado seja
Mal assombro das casas abandonadas
Coro de cego nas portas das igrejas
E o ermo da solidão nas estradas
Pispiando tudo do começo
Eu vou mostrar como se faz um pachola
Que enforca o pescoço da viola
E revira toda moda pelo avesso
Sem reparar sequer se é noite e dia
Vai hoje cantando o bem da forria
Sem um tostão na cuia o cantador
Canta até morrer o bem do amor
Banquete de Signos
(Zé Ramalho)
CBS/ Epic/ Sony Music
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Discutir o cangaço com liberdade
É saber da viola da violência
Descobrir nos cabelos inocência
É saber da fatal fertilidade
Descobrir a serena da natureza
Descobrir a beleza dessa mulher
Descobrir o quê da boniteza
Na peleja do homem que vier, quando vier
Descobrir o bagaço dos engenhos
No melaço da cana mais um beijo
Descobrir os desejos que não tem cura
Saracura do brejo da novena
Espiral do Tempo
(Geraldo Azevedo/ Carlos Fernando)
CBS/ Epic/ Sony Music
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Antes da China
O bicho da sêda
Depois o homem
O sabor o metal
Antes de todos
Formiga e abelha
João e Maria
A asa da paz
Ávido pássaro
Brilho de prata
Bico de ponta
Sede de amar
O sol das Américas
O cio da África
A energia que muda
As quatro estações
O pendão do trigo
A mão dos padeiros
A lã dos carneiros
O mar e os sertões
Capim do Vale
(Sivuca/ Paulinho Tapajós)
CBS/ Epic/ Sony Music
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Lava esse cheiro de erva
Pimenta e capim do vale
Lava esse cheiro de erva
Pimenta e capim do vale
Lava o suor da colheita
E aceita que eu te agasalhe
Larga a madeira na estrada
E larga essa faca de entalhe
Larga a madeira na estrada
E larga essa faca de entalhe
Larga o patrão na picada
E aceita que eu te agasalhe
Larga o patrão na picada
E aceita que eu te agasalhe
Sempre há de haver algum trigo
E da terra algum pedaço
Guarda a tua mão pra um amigo
Que não vai querer teu braço
Guarda a tua mão pra um amigo
Que não vai querer teu braço
Deixa o dinheiro mal pago
E mande que ele trabalhe
Deixa o dinheiro mal pago
E mande que ele trabalhe
Enquanto você toma um trago
E aceita que eu te agasalhe
Enquanto você toma um trago
E aceita que eu te agasalhe
Deita teu corpo em meu ventre
Que eu guardo a tua semente
Deita teu corpo em meu ventre
Que eu guardo a tua semente
Ninguém carrega a colheita
Dos frutos que são da gente
Ninguém carrega a colheita
Dos frutos que são da gente
Fulô da Margem
(Mirabô e Capinam)
CBS/ Epic/ Sony Music
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Não sou fulô que se cheire
E que se deixe murchar
Nem sou o mato onde morre
Onde corre a Estrela Dalva
Eu não sou corpo que se corte
Eu não sou sorte que se enjeite
Eu não sou porto que se deixe
Moreno, eu sei me levar
Eu não sou carne e nem sou peixe, moreno
Rio abaixo, rio acima
Nem sou cacimba vazia
Que se enche de chorar
Eu não sou braço de mar, moreno
Que não se deixe abraçar
Nem sou a fulô da margem, moreno
Que não se possa cheirar
Imbalança
(Luiz Gonzaga/ Zé Dantas)
CBS/ Epic/ Sony Music
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Óia a palha do coqueiro quando o vento dá
Olha o tombo da jangada nas ondas do mar
Pra você aguentar meu rojão
É preciso saber requebrar
Ter molejo nos pés e nas mãos
Ter no corpo o balanço do mar
Ser que nem carrapeta no chão
E virar folha seca no ar
Que é pra quando escutar meu baião
Imbalança, imbalança, imbalançar
Imbalança, imbalança, imbalançar
Imbalança, imbalança, imbalançar
Você tem que viver no sertão
Pra na rede aprender embalar
Aprender a bater no pilão
Na peneira aprender peneirar
Ver relampo no meio do truvão
Fazer cobra de fogo no ar
Que é pra quando escutar meu baião
Imbalança, imbalança, imbalançar
Imbalança, imbalança, imbalançar
Imbalança, imbalança, imbalançar
Iaiá, ô Iaiá
Minha preta não sabe o que eu sei
O que eu vi nos lugares onde andei
Quando eu contar, Iaiá
Você vai se pasmar
Veja (Margarida)
(Vital Farias)
CBS/ Epic/ Sony Music
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Veja você, arco-íris já mudou de cor
E uma rosa nunca mais desabrochou
E eu não quero ver você
Com esse gosto de sabão na boca
Arco-íris já mudou de cor
E uma rosa nunca mais desabrochou
E eu não quero ver você
Eu não quero ver …
Veja meu bem, Gasolina vai subir de preço
E eu não quero nunca mais seu endereço
Ou é o começo do fim ou é o fim…
Eu vou partir
Pra cidade garantida, proibida
Arranjar meio de vida, Margarida
Pra você gostar de mim
Essas feridas da vida, Margarida
Essas feridas da vida, amarga vida
Pra você gostar
Veja você, arco-íris já mudou de cor
E uma rosa nunca mais desabrochou
E eu não quero ver você
Com esse gosto de sabão na boca
Arco-íris já mudou de cor
E uma rosa nunca mais desabrochou
E eu não quero ver você
Eu não quero ver …
Veja meu bem, Gasolina vai subir de preço
E eu não quero nunca mais seu endereço
Ou é o começo do fim ou é o fim…
Eu vou partir
Pra cidade garantida, proibida
Arranjar meio de vida, Margarida
Pra você gostar de mim
Essas feridas da vida, Margarida
Essas feridas da vida, amarga vida
Pra você gostar…(solo Violão)
Pra você gostar de mim…

